A vida vista da janela

I won't let you close enough to hurt me. | via Tumblr

Nos conhecemos em 1989 ele morava no prédio ao lado na mesma direção da janela, da minha sala eu via o quarto dele os prédios tinham uns 20 metros de distância, ainda assim eu conseguia ver direito o rosto dele, ele chegava em casa uns vinte minutos depois de mim, era o tempo de eu trocar de roupa e ir pra cozinha fazer o meu almoço, minha mãe, que eu só vejo no natal e no meu aniversário e o da minha irmã desde os nove, já me acostumei com isso e meu pai, um militar que inventava muitas regras, uma delas era que ele não cozinhava, ele ficava conversando com o porteiro até eu preparar o almoço e mandar chama-lo, e nesse horário do preparo, o cara do sorriso engraçado chegava da escola e se jogava no sofá esperando a mãe gritar que o almoço estava na mesa, que era quando eu perdia ele de vista.

Mas o tempo passou, hoje eu vejo tanta gente pela rua, naquela correria de manhã, as vezes sinto falta daquela rua calma que eu morava, todo mundo conhecia todo mundo e ir pra casa era sem se apressar, andando devagar, parando pra conversar, me mudei pro centro em 1997,  quando consegui emprego numa agência de publicidade no Rio, tive um surto de carreira e quis fazer um curso e entrar pra policia federal, desisti na primeira semana, era muito sangue pra menina do interior. Mas valeu a pena, tive umas três propostas de emprego em agências depois que assumi minha demissão. Então fiz meu pai quase morrer do coração atoa, claro que ele me dizia que eu tinha enlouquecido quando entrei pro tal curso.

Não tenho mais aquela rotina desde 1994, quando tinha que ser uma das poucas a fazer faculdade e depois ainda trabalhar numa papelaria que faliu em 1996, depois resolvi fazer as malas e ir pro Rio, Voltei pra casa do meu pai no mesmo ano, sem emprego e sido quase que expulsa do apartamento, mas mesmo assim sem desistir de me tornar uma garota do centro, voltei pra capital!

As vezes fico olhando pela janela da sala pra ver se acho mais alguém com a vida programada como a daquele cara, o mundo olhado da janela de casa é mais simples, é só uma rua, com uma árvore que cobre quase toda a minha janela, aquelas pessoas passando na rua, sabe-se lá o que se passa na vida daquele alguém! Teoricamente todos nós passamos pela mesma coisa – ou deveríamos passar – nessa vida, nascemos, crescemos, quem sabe estudamos, quem sabe casamos, viajamos, envelhecemos, ficamos bobos e achamos que sabemos algo da vida, mas não temos nem ideia de como ela realmente é.

Costumo ainda ler alguns dos livros de romance policial que me fizeram achar que podia ser uma daquelas policiais, coleciono fotos de uma câmera de filme que ganhei em 1990 de lugares que já fui. Recebo no dia 10 e adotei um filho, dois anos depois de me casar, parece que faz tão pouco tempo desde que eu olhava pela janela e via tudo tão comum e calmo e achava que viveria sempre por ali, sem o estresse da cidade grande nem a correria de manhã sem nem poder ver o sol nascer direito! Mas agora olha aonde eu estou, não eram as escolhas que eu planejava nem onde eu esperava estar, mas se fosse pra recomeçar faria tudo de novo, alguns erros que fizeram parte da minha história que algum dia, possa interessar a alguém, além de umas frases escritas pela casa que só fazem sentido na minha mente!

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s